domingo, 29 de janeiro de 2012

Di(s)manche


É possível um diálogo de silêncios? Aprendemos na interação. E o que se sabe da não interação? O que se aprende do isolamento? É certo que se aprende. Não das coisas dos homens, mas do mundo. Talvez de um só homem. O domingo se arrasta, infestado do cheiro de incenso, traços obtusos. E o que se aprende do domingo? Não é domingo um isolamento? Um ritual de passagem para a semana, cheia. E o domingo incomensurável. Uma bolha tão transparente que jamais notamos. E o que há após a vida senão domingo? Não organizem o domingo! Qual o sentido da semana? Pra que serve tudo o que fazemos senão para que possamos parar de fazer no domingo? E no primeiro dia ele acabou com os outros dias, e viu que era bom. Haja luz? Haja equilíbrio! Que os domingos nos permitam apodrecer! Haja luz! E o infinito foi transformado em pedaços inúteis oscilando no universo. Não me organize no domingo, Deus! “A vida voa baixinho”. Porque nem Deus suportou o Deus e se desfez em poeira pra se compreender. E viu que era bom, mas não era o bastante. Vamos apertando o que não entendemos, deixa pra domingo. E agora já entendemos tudo. Não é assustador entender um domingo? Um domingo não é inteligível! Quero a incerteza! Quero não saber o que será do domingo! Eu te quero Deus, completo, tu e o diabo num só. Tu e tu. Eu não existirei mais, prometo.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Fotográfica


E então a música, ridícula música de letra ambígua te assalta a cabeça. E você ri, com gosto, até que o riso se torne desesperado e então vem também o nó na garganta e o riso se desfaz em um não saber lidar maior do que o que se pode lidar. Olhe ao redor, sim, olhe ao redor agora! Não se pode organizar essa bagunça que aos olhos te parece organizada, mas que teu coração sabe que é o mais infernal caos. Tuas mãos, essas mãozinhas pouco encantadoras, tateiam na penumbra do universo em busca da felicidade que não é maior que uma cabeça de alfinete. Esses livrinhos, querida, que tuas unhas mal pintadas tateiam, logo após enrolar o fio do fone de ouvido, não serão jamais a tua salvação. É uma experiência bem estética não é, meu bem? O cigarro vacilante nos teus dedinhos gordos com unhas curtas, enquanto a outra mão mantém o livro aberto em teu colo. E o que diz o livro? “O meu amor no teu que passa. Colinas, pássaros, teu momento, meu passo.”

Isso, olhe pra cima pra soltar a fumaça, como se abstraísse algo do que leu, fica bonito assim. E então, com essa roupinha listrada, rode o gelo no copo de whisky com as pontas dos dedos. Ele se apaixonará, escute o que eu digo. Mas o que será de você? Assim, tão calculada, tão previsível? Você não é sensível meu amor, você só tem visto filmes demais, observado demais o que enche os olhos. E ele vai se apaixonar por você, mas vai te destruir, porque ele é puro ímpeto, você não o organizará, amorzinho. Haverá o dia em que você, por algum motivo, vai errar sutilmente no cálculo e ele vai te adivinhar, e os olhos dele ficarão opacos com o vazio que você é. Corra querida, olhe ao redor, você não pode lidar com essa bagunça, engula a bosta do gelo, sim, duma só vez, e entenda que é melhor assim. É melhor essa coisa te rasgando a garganta e seus olhos avermelhados pela falta de ar quando ele passar, um dia ele vai te amar igualmente, e vocês serão um pandemónio.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Nefelibata


Em um só golpe

Escurece a sala que nos abriga

Poderoso, nuvem, adentras


Ventanias entrecortadas por olhares

Preparamo-nos para a tempestade

Para tuas gotas geladas e sinceras


Esperamos chuva ácida,

Tragédia indiscutível

Destruição sem distinção


Mas te acuas num canto

A sala clareia

Senta-te


Tristes, entendemos

Só a teu desprezo

Somos dignos

us


Exalando um ar poderoso

As plantas aqui se afirmam

Mais que eu, efêmera.

O céu, visceral, revolve

Em nuvens e faíscas se acendem

Sem culpa, sem remorso.

Como somos

Ingênuos em nosso movimento

Leve e pretencioso,

Um levar a boca vagaroso

Do néctar dos inimigos

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Quelícera


Jogo de pernas delicado, um balé surdo e fatal. Corria um escorpião na areia quente. Um rio leitoso descia inexplicável pela garganta que, contra todas as expectativas, não se ressecara mais se tornara ainda mais plena. Envolta de aridez, a boca se abria contra o sol, como que pronta a subjuga-lo e engoli-lo. Ela havia falhado. Consigo e com todas as convenções humanas já criadas, ela havia falhado. A falha, contudo, não despertou nela nenhuma cólera, nenhuma infelicidade, nenhuma inquietação consigo. Sede. Uma sede tremenda se estabeleceu sobre ela e só isso. Ela jamais voltaria a viver como antes, jamais seria a mesma, talvez jamais voltasse a viver entre os humanos e agora, em meio a essa paisagem desértica, ela quis tudo de uma maneira tão maior, tão além dela própria, que se deitou no chão e abriu a boca. Não choverá. Não é da sede efêmera que se desfaz com um gole, estamos tratando de alguém que precisaria beber o oceano. Ela respirou, pausadamente, com a boca aberta. Passou o escorpião próximo a seus pés, ela o fitou como quem espera alguma atitude. O escorpião passou direto, com o ferrão içado, transbordando uma espécie de suor e veneno. Fechou a boca e o observou passar atônita. Era o segundo escorpião.

Como ela, os escorpiões podem viver com pouco, mas é ilusão pensar que a sede e a fome deles são menores. A sede é o leite que torna plenos aqueles que sequer sabem que querem. Tanto queria o escorpião, que marchou em direção ao primeiro e o atacou, sem aviso. Nem ele saberia que atacaria o outro, é possível dizer. Na indiferença do calor do solo, as pinças destroçavam a dureza do corpo da vítima e levavam os seus pedaços miúdos a boca ainda menor, não menos ávida. As lágrimas encheram os olhos e a boca se desfez em riso. Gargalhou. Ela levantou, calçou as sandálias amolecidas pelo calor e caminhou, quase sem rumo. Ela jamais saberia, senão no coração, que iria atacar.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

encore ça...


O texto abaixo foi escrito em Julho de 2011, talvez pra quem lê também perca o sentido dependendo da época.


***

Surgistes no orvalho da manhã após a súplica

Transformastes o sal do meu pesar em tua morada

Apartando-se leve, como música

A dor se vai, ultrapassada


E a tua dor, cerre entre os tijolos do meu pranto

E vão juntas, nossas dores

Juntem-se também nossos amores

Pra tornar alegre o nosso canto