quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Rútilopaco


O que se faz dos teus olhos?

O que se faz

De tal gruta úmida e funda,

Inopinado clarão


O que se faz do sem brilho

Dessa tua pupila negra?

O que tu fazes?

Tu, tão imparcial


O que fazes dos teus olhos

Senão dilacerar os mortais?

O que fazes Medusa?

Choras um pranto de águas vivas?


Queimemo-nos então com tua

Superioridade, mas depois

Depois do nosso fim

Só no mundo, o que tu fazes?

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Cantares do sem nome e de partidas - Hilda Hilst

Sempre postei textos meus, mas alguns me matariam sorrateiramente durante a noite se eu não os compartilhasse. Esse é um trecho dos "Cantares do sem nome e de partidas" de Hilda Hilst, uma escritora fênomenal que é praticamente anônima na literatura brasileira porque nunca se adequou ao "mercado" que as editoras buscam. Deixo Hilda mostrar o que se pode fazer com as coisas para que não se justifiquem os que fazem menos delas em nome do lucro.

VII

Rios de rumor: meu peito dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo vêem aquela.

VIII

Aquela que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem fim de ninguém
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. É etérea.

Pertencente é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã,
Não tem ilharga ou osso.
Fende sem ofender.
É vida ferida ao mesmo tempo, "ESSE"
Que bem me sabe inteira pertencida.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

ಕ್ರಿಯಾಪದ Kriyāpada


A Daniel Prestes


Quão íntegra é a folha última sem seu livro-mãe? Quem é capaz de suportar o torpor de ser um avant-garde sem raízes? Ah sim, porque todo avant-garde é uma negação do passado, e o que é a negação de nada? Sem passado, o simples fato de existir é uma negação da inexistência precedente. Então a vida começa assim, nascemos em negação à morte, respiramos em negação à natureza peixe de nossa vida intrauterina. De repente, ele se pega com uma saudade pré-linguagem da placenta que o acompanhou e foi descartada, como as fotos de sua infância. Uma saudade pré-linguagem porque é uma negação da saudade expressa por essa palavra simplória e intraduzível: “saudade”. Orgulhamo-nos em negação aos anglicismos e galicismos, como se a intraduzível palavra “saudade” fosse capaz de traduzir à consciência o que de fato é saudade.

Quem mais é órfão de passado nesse mundo? Ele se pergunta. E cadê aquelas fotos de infância, meu deus? Vivemos num “kaizen” que não nos permite essa negação total de nossas fundações. Como serei melhor sem saber o que fui ontem?

Entra em cena o Kaos, diz ele: no começo era o verbo. Mas que verbo é esse verbo? E a própria existência da escrita pode ter ocorrido por um verbo. REMEMBER! Remember the 5th of November! Or should it be the seventh of September? E talvez fosse o verbo esse número 7, como uma seta incerta que indicasse a mudança brusca de rumo. Talvez o passado tenha sido assim, um ângulo agudo de 7, e não se perdeu mas não está mais visível porque agora você caminha numa direção diferente. Mas cadê as fotos, afinal? Estão juntas com os grunhidos do Deus quando disse que no começo ERA o verbo, ainda antes da criação do verbo.