Coventry



I

Se de fato me buscas, 

me verás logo antes do crepúsculo, 

refletido em portas de prata 

em montes de aço e sílica, 

em arcos de metal 

Nas profundezas:

nas pupilas de outros que sequer te sabem vivo

e sabem ainda menos de mim

 Se, por ventura, nos adivinharem,

 também se irá a memória de nós

no reluzir seguinte de uma luz qualquer, 

no alerta de um telefone, 

no girar vertiginoso da rocha suspensa 

no negro caudaloso do vácuo. 


II


E quando me encontrar 

Será como testemunhar 

Apenas o desgaste nas pedras

De anos de caminhada

Uma breve beleza que se esvaiu 

E, enquanto durava, era menos beleza 

e mais lida, andanças, procura

Um detalhe, um arabesco

Num canto de madeira 

Como prova de anos de avanços

Décadas de retrocesso

Crescimento, labor 

Um entalhe seco 

Numa esquina deserta

Num domingo de sol


III


E ainda que ínfima, 

Apesar das bombas 

Do Blitzkrieg,

do relâmpago dos tempos e da indiferença

Uma beleza de um átimo,

Mas uma beleza que existiu 

Uma garoa breve que umedeceu pastos

E trouxe o inenarrável regozijo das ovelhas

Uma brisa nos cabelos de alguém qualquer 

Uma nuvem que se dispersou

Um raio de sol filtrado pelo caco azul num dos últimos vitrais 

Uns poucos pulsares de um coração

Um fremir microscópico 

O toque de uma libélula na superfície do lago 

Com o enorme peso do perdão

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